PUBLICIDADE

Vida em propriedades urbanas: para além do digital

Por Revista Síndico
Última atualização: 24/09/2021
,

WhatsApp Image 2021-09-22 at 18.16.05
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

“Estou morando no zoom”, disse com voz cansada o professor, consultor e palestrante, mas sem perder o bom humor revigorante e típico daqueles que gostam do que fazem. Em tempos de confinamento, a mudança para a realidade virtual – arrastando consultas médicas, sessões de terapia, aulas, compras, reuniões de escritório, audiências públicas, defesas de bancas, congressos acadêmicos, shows, festas, comemorações familiares, etc. – não aconteceu sem boa dose de violência. 

Muitas foram as dores corporais, intenso o sofrimento psicológico e enorme o cansaço mental, fruto de horas a fio diante da tela. Em paralelo, uma violência pior deixava tantos outros… sem acesso à internet, sem consultas, sem trabalho, sem comida, sem nada… Definitivamente, a crise agravada pela pandemia do coronavírus não colocou a todos no mesmo barco. Antes, serviu para confirmar que, estando na mesma tempestade em pleno mar aberto, uns conseguiram se manter em ritmo de cruzeiro enquanto outros tiveram que se arriscar em botes infláveis, refugiados e apátridas em sua própria pátria. 

Agora que se fala em retomada rumo a um ‘novo normal’ (mas, que novo? … e que normal?), faz-se necessário, depois de tanto aprisionamento nesse universo sem cheiro, sem toque e cinestesia, que cada um se pergunte sobre o quantum narrativo em que se encontra. Em outras palavras, é hora de questionar qual tem sido o sacrifício de nosso homonarrativus em função de nosso homodigitalis. Sim, afinal, a virtualização da cotidianidade veio para ficar e, apesar da chegada de vacinas, a ciência deixa claro que teremos que lidar com esse – e, por que não dizer… outros? – vírus daqui para a frente. 

É fato que a conexão online viabiliza, facilita e otimiza tanto os nossos afazeres quanto a nossa convivência interditada de presença real. Mas isso não quer dizer que promovamos uma passiva e resignada adaptação, sem o necessário exercício de pensamento crítico sobre perdas e prejuízos. Significa dizer que apostar numa organização social pautada, apenas, pelo homodigitalis é enveredar num processo sem volta de objetivação e planificação da vida. Seria tomar, de vez, o caminho da sociedade do desempenho, como alerta o filósofo sul-coreano, Byung-Chul Han. “O homem digital passa os dedos, enumera e calcula constantemente. A era digital totaliza o aditivo. Hoje tudo é tornado enumerável, a fim de poder ser convertido na linguagem do desempenho e da eficiência. Assim, hoje, tudo aquilo que não é enumerável cessa de ser” (2018a, p. 66-67). 

Optar, portanto, pelo homodigitalis é estagnar em nossa versão touch, que só se ocupa de números, aferição, metas, resultados e contabilizações; vida positivada pela quantificação de posts, de curtidas, de inscritos no canal, de seguidores, de comentários, de influenciadores etc. A versão touch é a nossa expressão mais precária: pouco compreende, pouco aprofunda, pouco elabora… apenas computa. Manter-nos na ótica digital é ganhar em celeridade, rendimento e eficiência. 

Contudo, é lançar-nos na ditadura do idêntico, tornando-nos meras máquinas de desempenho, que funcionam livres de perturbações e só maximizam resultados (cf. 2015, p. 70). A pauta do digital é narcísica, sem pausa e imperativa. Seu lema, por excelência, é a conjugação do verbo modal “poder” – Tu podes…tudo! Ou, “Yes, you can!”. Por isso mesmo, é também geradora de, como diz Han, infartos psíquicos. Por se achar “senhor de suas escolhas”, nosso homodigitalis do desempenho acaba tornando-se escravo de si mesmo e vítima de autoexploração. 

Por seguir um esquema maquinalis, não sabe como parar a “positividade do poder”. Conduz sua vida, consequentemente, ao esgotamento e à enfermidade neuronal, caracterizada por doenças como depressão, síndrome do pânico, crises de ansiedade e burnout. Como diz Han, “junto com a síndrome de burnout, a depressão representa um fracasso sem salvação e insanável no poder, isto é, uma insolvência psíquica” (2017, p. 25). Nosso homodigitalis do desempenho se implode, enfim, de tanto poder.

Como ajudá-lo? O que estamos deixando de lado e que poderia desacelerar o ritmo compulsivo dessa nossa face tão debilitada? A aposta na negativação do verbo modal poder por meio do nosso homonarrativus. Nesse sentido, Byung-Chul Han, aponta: “A história é uma narrativa [Erzahling]. Ela não enumera. Enumerar é uma categoria pós-histórica. Nem tweets nem informações se reúnem numa narrativa. Também amigos no Facebook são, antes de tudo, contados [gezählt]. A amizade, porém, é uma narrativa” (2018a, p. 66-7). 

 

Em outras palavras, “os números não contam nada sobre o eu. O eu se deve a uma narrativa” (2018b, p. 84). Somos biográficos; somos contadores de histórias! Nosso homonarrativus é cheio de negatividade: se cansa, se esvazia e pede arrego antes de enveredar no colapso. Admite e procura a presença do outro para desinflar o seu ego e impor limites; mas também para encontrar colo. Nosso homonarrativus tem medo e se acovarda; erra e tenta muitas vezes até acertar… Às vezes, sequer acerta. Sem o exercício de nosso homonarrativus questionar o nosso modo de ser digitalis fica impossível, simplesmente porque não paramos para pensar e, consequentemente, não dizemos “não” às exigências da sociedade do desempenho. É, enfim, o nosso homonarrativus aquele que não contabiliza, mas poetiza a nossa existência nos lembrando que a vida enquanto “poema é antes de tudo um inutensílio” (Manoel de Barros).

 

Então, que em nossas casas, nossos condomínios, nossas empresas, nossa cidade… possam todos contar com nossas narrativas, enriquecendo a vida com capacidade de escuta, de olhar atento e de solidariedade. Isso é viver bem em propriedades urbanas! Dessa forma, que a nossa atuação social vá além do digitalis e se faça história junto aos outros, mesmo com restrição de presença física. Amar, sentir, doer, ajudar, interessar-se por quem precisa, sofrer junto… é o que mais precisamos agora. Melhor que curtidas e seguidores é a sensação de dever cumprido na consciência que, mesmo anônima às redes sociais, nos permite deitar tranquilos no travesseiro a cada noite.

 

Por: Bianca Damasceno

 

Livros de Byung-Chul Han usados neste texto da Coluna.

Agonia de eros. Trad Enio Paulo Giachini. Petrópolis, RJ: Editora Vozes. 2017, p. 25.

No Enxame: perspectivas do digital. Trad Lucas Machado. Petrópolis, RJ: Editora Vozes. 2018-a, p. 66 e 67.

Sociedade do Cansaço. Trad Enio Paulo Giachini. Petrópolis, RJ: Editora Vozes. 2015, p. 70.

Psicopolítica, o neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Trad Maurício Liesen. BH: Editora Âyiné. Nr.1. aut-aut, 2018-b, p. 84.

 

 

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE