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Mais que vizinhos, amigos!

Por Revista Síndico
Última atualização: 02/08/2022

Two happy female pensioners drinking tea on balcony and smiling
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Nos últimos dois anos, durante a pandemia, fomos obrigados a passar muito tempo em casa. Em alguns momentos, sozinhos, ou apenas com a nossa família mais próxima. E é claro que essa mudança drástica de comportamento trouxe reflexos profundos na nossa sociedade. No primeiro ano de Covid-19, por exemplo, a prevalência global de ansiedade e depressão aumentou em 25%, de acordo com um resumo científico divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

E é claro que, nesse contexto, ter uma rede de apoio que nos ajude não apenas no sentido prático, faz toda a diferença. Especialmente quando essa rede está dentro do próprio condomínio. Seja por proximidade ou mesmo por obra do acaso, muita gente acabou fortalecendo a amizade ou até construindo novos laços com os vizinhos durante o período. Com a proximidade do dia da amizade, em 30 de julho, a Revista Síndico procurou histórias como essas.

É o caso dos jovens Luísa Monteiro e Gabriel Sampaio, ambos de 26 anos, e que moram em um pequeno condomínio em Laranjeiras, zona Sul do Rio de Janeiro. Tudo começou quando, um dia, em 2021, quatro meses após se mudar, a Luísa saiu para pegar um Uber e o motorista acabou atrasando dez minutos. Ela teve que esperar sentada no banquinho do prédio. E quem estava lá? O Gabriel.

“Sentei ao lado dele e começamos a conversar. Falamos muito, uma conversa longa sobre muitas coisas: sofrimentos, pandemia, corações partidos… Nós trocamos Instagram nesse dia, e logo descobrimos que ambos éramos botafoguenses apaixonados. E foi isso o que nos uniu. Começamos a falar muito do Botafogo. Pouco tempo depois, começamos a sair juntos e nos tornamos grandes amigos”, explica Luísa.

Luísa e Gabriel não são vizinhos de porta. Ela mora no térreo e ele no quarto andar. Mesmo assim, eles se encontram constantemente no prédio. Se esbarram pelo bairro, saem juntos muitas vezes, inclusive para ver jogos do Botafogo, mas é no banquinho que eles, de fato, fortalecem a amizade.

“Várias vezes acontece de eu ou ele estar meio triste e aí combinamos de conversar no banquinho. Também já fizemos várias brincadeiras de ficar se comunicando pela janela, vira uma rotina brincalhona, mais leve. Saímos muito e é muito legal porque sempre voltamos para o mesmo prédio juntos, fora que é uma segurança também. É como ter um irmão que não volta para a mesma casa que você”, conta.

E apesar de terem horários e rotinas um tanto quanto incompatíveis, eles se tornaram amigos e criaram uma rede de apoio e de segurança entre eles. O Gabriel acabou conhecendo também as amigas da Luísa, que moram com ela, a Carolina Lavigne e a Isabella Raposo, que a conheceram por acaso também, quando estavam procurando uma pessoa para dividir o apartamento.

“Uma vez o Gabriel foi comigo na UPA. Eu estava sozinha em casa e precisei ir lá com urgência. Comentei e ele me levou. O Gabriel me ajudou muito nesse dia, nunca vou me esquecer”, conta Luísa sobre o amigo.

A psicóloga Elaine Amaral explica que a amizade é vista como uma das principais fontes de felicidade e bem-estar. “Ela proporciona um suporte tanto social como emocional por causa do compartilhamento das experiências, interesses, sentimentos e emoções. A amizade verdadeira permite que a pessoa tenha aprendizado de habilidades essenciais nas relações interpessoais. Pessoas que estão mais conectadas umas às outras, não só são mais felizes, como também são mais saudáveis, além de viverem mais”, diz a especialista. 

Elaine Amaral explica ainda que, para atingir essa conexão, a pessoa deve dedicar um tempo a mais para estabelecer relações mais sólidas com as pessoas que irão apoiá-la. “Quando estamos sozinhos, os níveis de estresse do corpo aumentam e isso nos leva a um estado de resposta de luta ou fuga, mas a solidão é um desafio que não tem fim. O corpo permanece nesse estado com níveis mais altos de hormônios do estresse, inflamação crônica, e isso contribui para destruir a saúde”, alerta.

 

Amizade fortalecida na pandemia numa rede de amigos de cerca de 20 vizinhos

Em Varginha, sul de Minas Gerais, a jornalista Barbara Honkis, de 38 anos, vive uma situação um tanto quanto inusitada. Ela se mudou de vez para a cidade em 2018, após ter morado por lá em 2015, mas num condomínio em que não se adaptou. Porém, desta vez foi diferente. Barbara, que já tinha um filho de um ano quando mudou, não poderia imaginar que, mais do que morar, ela estava prestes a fazer grandes amigos no Condomínio Maria Resende Braga, de 96 unidades.

“Dizem que filho facilita a amizade entre adultos. E depois que os meus nasceram, pude comprovar a veracidade desta máxima. Logo na primeira semana, conheci alguns moradores que desciam com seus filhos para passear. Quando me mudei, havia apenas 31 apartamentos ocupados no edifício. Então, eu que sou muito comunicativa, decidi organizar uma festa junina para que os moradores pudessem se encontrar. E foi assim que fomos nos conhecendo”, diz.

A jornalista conta que, pouco tempo depois, engravidou do segundo filho. E foi durante a gestação que ela entendeu que “quem tem amigos, tem tudo”. Ou seria “quem tem vizinhos que são seus amigos, tem tudo”? 

“Quando estava com seis meses, tive uma gastroenterite e fui orientada pelo meu ginecologista a ir ao médico tomar soro e me hidratar. Meu marido também estava com o mesmo quadro clínico. Sem rede de apoio nenhuma na cidade, bati na casa de uma vizinha que eu havia conhecido há poucos meses, e deixei o Miguel, então com um ano e meio com ela, que também tinha uma menina da mesma idade. Miguel passou a noite lá, enquanto meu marido e eu ficamos no hospital, retornando apenas pela manhã. Nunca vou me esquecer o quanto ela me ajudou, apenas porque morávamos perto. É o tipo de coisa que só um amigo faria”, relata.

Barbara conta que, com o tempo, as unidades começaram a ser ocupadas. Mais famílias foram chegando ao condomínio. Aos poucos, a rede de apoio foi crescendo e crescendo. E a pandemia foi o estopim para unir ainda mais os vizinhos.

“Todos com quem tenho uma relação mais próxima aqui são de fora da cidade o que facilitou, e muito, nos conhecermos e fazermos as coisas juntos. Passamos muitos dias, logo no início da pandemia, quando ninguém conhecia ou sabia o que era esse vírus, trancafiados em casa. Enquanto Rio e São Paulo estavam com números muito altos, aqui em Varginha ainda não tínhamos muitos casos, então, conseguimos descer e brincar com as crianças enquanto tudo estava fechado. Era nosso único lazer. Os laços de amizade foram ficando mais e mais fortes”, relata.

Barbara não sabe precisar quantos são os amigos que criaram esta forte rede de apoio, mas acredita que, hoje, eles sejam em torno de 20 pessoas. “Já viajamos juntos, passamos dias incríveis no rancho do meu sogro, combinamos de ir a shows… Alguns casais recentemente foram para o Sul do país de viagem entre amigos e nos fins de semana a gente sempre inventa algo. Quando não é na casa de um, a gente aluga a churrasqueira e faz a festa por lá. E no verão, a gente faz um churrasco de AirFryer na piscina que não tem para ninguém”, brinca.

Mais do que se relacionar, a proximidade entre eles faz com que um sempre apoie o outro, seja deixando um filho na casa de alguém, cuidando rapidamente dos pequenos enquanto alguém precisa fazer uma reunião, ou marcando um jantarzinho na semana. Eles estão sempre juntos. Em cafés, aniversários, desabafando… 

E como todos moram no mesmo bairro, é comum alguém ir buscar um filho na escola e trazer todos de uma vez. E sempre tem eventos no condomínio, afinal, a amizade precisa de momentos de confraternização. Este mês, por exemplo, foi organizada uma festa junina com roupas iguais para as dez amigas vizinhas encomendadas especialmente para o arraiá.

“Recentemente, meu mais velho fez um procedimento médico e os primeiros dias foram terríveis… Ele chorava de dor, não sabíamos como proceder, estávamos aflitos. Então, liguei para minha amiga/vizinha que também é pediatra deles e disse: ‘Você pode vir, como amiga, para acalmar meu coração porque eu não sei mais o que fazer’. E ela veio, pegou ele, e foi a única que conseguiu dar banho no meu filho. Eu disse para ela que ela poderia até ter achado que foi um simples banho, mas para mim foi muito mais do que isso. Foi empatia, foi carinho, zelo”, relata.

O psicólogo Fredy Figner explica que toda relação que é uma relação que nos apoia, que nos nutre, que nos dá uma sensação de segurança, é uma relação que aumenta as emoções positivas e que aumenta o bem-estar, ou seja, que nos torna mais felizes. 

“Então, vizinhos ou amigos que nos apoiam em momentos que precisamos, como uma rede de apoio, ajudam a nossa saúde mental. Toda pessoa que nos dá a sensação de poder contar com ela, vai gerar em nós um aumento das nossas emoções positivas, da nossa segurança psicológica, e isso vai nos trazer mais saúde mental. Não existe saúde sem saúde mental. Nunca se falou tanto sobre saúde mental, porque nunca se adoeceu tanto de saúde mental. Então, quando temos uma rede de apoio, que pode ser networking, amigos, vizinhos, uma comunidade, uma igreja, pessoas que fazem um curso… Também temos uma melhora da saúde mental”, diz o especialista.

Ele explica ainda que os relacionamentos de amizade são uma espécie de construção mútua: “Qualquer relacionamento que nós temos com alguém, é uma relação que é construída à base das experiências que vamos passando com a pessoa, e da credibilidade e da confiança que ela vai estabelecendo com a gente. Então, a minha sugestão é sempre construir uma relação e isso demanda tempo. Experiências e confiança para que seja uma relação, de fato, construída e não superficial. Inclusive com os nossos vizinhos, que fazem parte da nossa intimidade, porque estão próximos do nosso cotidiano, da nossa vida mais íntima e do nosso templo, que é a nossa casa”, conclui. 

Dicas para fazer amizade no condomínio:

  • Conheça seus vizinhos de porta, apresente-se, é importante saber quem mora ao seu lado;
  • Frequente as assembleias e participe das atividades do condomínio;
  • Seja solidário quando um vizinho precisar ou pedir ajuda, nós nunca sabemos o dia de amanhã;
  • Participe de eventos de socialização e se o seu condomínio não tiver uma programação de atividades (como festa junina), sugira ao síndico que faça.

 

Por: Mario Camelo

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